O que o leitor lusófono precisa saber primeiro
Quem acompanha bancos, seguradoras e grandes empresas no Brasil e em Portugal vai ouvir muito a expressão “IA agêntica”, ou seja, programas que executam tarefas por conta própria. O dossiê que sustenta esta reportagem não contém dados sobre empresas brasileiras ou portuguesas. Em vez de inventar um ângulo local, mostramos o que existe: o obstáculo apontado pelos números não é falta de vontade, mas a qualidade e o alcance dos dados internos das empresas. É um problema que qualquer empresa, em qualquer país, enfrenta antes de entregar tarefas a um agente.
Segundo o levantamento citado, dentro de dois anos 100% dos respondentes planejam usar IA agêntica, e 69% esperam usá-la de forma ampla.1 Nossa síntese da mesma pesquisa, atribuída à Google Cloud, indica que a IA consegue acessar em média apenas cerca de 45% dos dados da empresa e que só cerca de metade dos respondentes confia nas decisões de seus agentes. Esses dois últimos números vêm da nossa síntese do tema, não de uma afirmação verificada de forma independente.
Quanto o dado ruim custa
O mesmo texto afirma que, nas organizações classificadas como “data laggards” (atrasadas em dados), o acesso da IA aos dados da empresa cai para 30% ou menos.1 Na prática, um agente que enxerga menos de um terço da informação decide com base em uma fração do que a empresa sabe.
Ressalva de confiabilidade: a medição do nosso sistema indica que 0% das 11 afirmações checadas dessa publicação se sustentaram.1 A amostra é pequena e o resultado não prova que os números da pesquisa estejam errados, mas pede cautela. Tratamos o quadro geral (adoção alta, dados como gargalo) como plausível e os percentuais exatos como não confirmados.
Onde o dinheiro e os contratos estão indo: governança
Os anúncios recentes seguem a mesma lógica. Em 22 de julho de 2026, Manulife e Microsoft anunciaram a renovação e a expansão da parceria, num acordo de cinco anos. A Manulife adotará a Frontier Suite e o Microsoft Agent 365 e ampliará o Microsoft 365 Copilot para mais de 30.000 funcionários.2 Shamus Weiland afirma que a parceria é um habilitador crítico da evolução da Manulife para uma organização movida a IA, e que a Frontier Suite dá uma base confiável para avançar com segurança e responsabilidade.2
Em 21 de julho de 2026, a Box anunciou controles para proteger agentes de IA que atuam sobre conteúdo corporativo. Entre eles estão proteções para os agentes, supervisão da atividade de agentes de terceiros, detecção de injeção de prompt e políticas de acesso por classificação do agente.3 O Nomura Research Institute, segundo Tatsutoshi Murata, espera que a Box ofereça os recursos administrativos necessários para usar agentes de IA com segurança.3
Ambos os comunicados vêm do NewsEOD, cuja confiabilidade medida é de 57% de 4.956 afirmações checadas que se sustentaram.2,3 São comunicados das próprias empresas, e convém lê-los como tal.
Fora do grande porte, o dossiê registra que a Latitude, plataforma de pagamentos fundada por Cyril Mathew, ex-integrante da equipe de cripto da Stripe, levantou uma Série A de US$ 35 milhões em 10 de setembro de 2026 para pagamentos de stablecoin para moeda local.4 O dossiê não liga a Latitude a nenhum mercado lusófono, então não sugerimos relação alguma.
A fornecedora dos chips: o que os números verificados da Nvidia mostram
Se os agentes precisam de infraestrutura, a Nvidia é uma das fornecedoras no dossiê. Segundo o grafo de entidades, ela desenvolve o NeMo Guardrails, o NeMo Agent Toolkit e o Nemotron 3 Super, e compete com a AMD. Entre seus clientes estão o Mount Sinai Health System, a Yum! Brands e a Agência de Assuntos Legislativos do Estado do Alasca.5 O dossiê não informa se a Nvidia faz parte dos fundos de índice que o leitor possa ter, e não vamos supor.
Os dados abaixo vêm de arquivos oficiais, foram verificados e são tratados como fatos. Nos números em dólares usamos a convenção brasileira de bilhões (mil milhões em Portugal). O custo da receita, o que a empresa gasta para entregar o que vende, foi de US$ 16,621 bilhões no ano fiscal de 2024, US$ 32,639 bilhões no de 2025 e US$ 62,475 bilhões no de 2026.6 Em dois anos, esse custo multiplicou-se por cerca de 3,8. Como o dossiê não traz a receita da empresa, não calculamos margem nem lucro.
No primeiro trimestre, o salto é ainda mais nítido: US$ 2,544 bilhões no 1º trimestre de 2024 contra US$ 20,458 bilhões no 1º trimestre de 2027, ou seja, cerca de oito vezes mais.6
O caixa da empresa também cresceu, de forma menos linear: US$ 7,28 bilhões no ano fiscal de 2024, US$ 8,589 bilhões no de 2025 e US$ 10,605 bilhões no de 2026.7 No primeiro trimestre, o caixa foi de US$ 15,234 bilhões em 2026 e de US$ 13,237 bilhões em 2027, uma queda entre os dois períodos.7 O dossiê não explica o motivo, e não especulamos.
A corrida por nichos: automação no lugar de mão de obra
As entrevistas da CB Insights mostram como as startups vendem essa promessa, sempre em suas próprias palavras. A Covecta, voltada a bancos e instituições de crédito, diz que seu mercado são “dezenas de milhares de instituições financeiras globalmente” e que busca atingir “não apenas o orçamento de software, mas o orçamento de mão de obra”. No original em inglês: “for them we are not just disrupting their software budget but their labor budget as well.”8 Ben Thomas afirma que a empresa atende hoje EUA e Reino Unido, com “aspirations to move globally thereafter”.8 Esse plano de expansão global é uma aspiração declarada, não um fato.
A Penguin AI aplica a mesma lógica à saúde. Segundo Glenn Herzberg, “US Healthcare Administration runs about a trillion dollars a year, about a quarter of the total health spend, and the published estimates put around $570 billion of that in work that has no effect on health outcomes.”9 Os números são de uma executiva de marketing, citando “estimativas publicadas” que o dossiê não identifica.
David Villalon, da Maisa AI, define seu mercado como automação de tarefas centrais em setores regulados, nos quais as tarefas precisam ser auditáveis, reproduzíveis e resistentes a alucinações.10 É justamente o ponto em que o problema de confiança descrito acima pesa mais.
Do lado dos investidores, Emily Man, da Primary, diz sobre os fundadores da Casap: “We were immediately really excited about them because of their backgrounds, and they talked to us about this opportunity that they were thinking about tackling.”11
O mercado também está sendo mapeado e vendido
Em 22 e 24 de setembro de 2026, a CB Insights publicou entrevistas com os líderes da Veridox, da Binary World, da Shepherd, da Arlo e da LARX, sempre com o mesmo roteiro: como a empresa vê o mercado, as necessidades dos clientes e a si mesma.12 Esse fluxo constante de entrevistas indica que a categoria “IA corporativa” virou também um produto de informação. Para o leitor, vale lembrar que essas entrevistas são conduzidas com as próprias empresas e não são avaliações independentes.
O que observar
- Acesso a dados: se novas pesquisas confirmarem o patamar de cerca de 45% e a fatia de ‘data laggards’ com 30% ou menos, o gargalo é real. Dada a baixa confiabilidade medida da fonte atual, aguarde confirmação independente.
- Confiança nos agentes: ferramentas de controle, como as da Box e o pacote da Manulife com a Microsoft, são a resposta de mercado. Observe se os clientes passam a divulgar resultados, e não só contratos.
- Custos da infraestrutura: o custo da receita da Nvidia segue subindo, e o caixa no 1º trimestre de 2027 ficou abaixo do de 2026.
- Lusofonia: nada no dossiê trata de Brasil ou Portugal. Se bancos e seguradoras locais anunciarem agentes, o teste será o mesmo: quanto dos dados da própria casa eles conseguem usar.


